Filhos do Século XXI

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Foto: Gustavo Klimt

Para nossos filhos sonhamos um mundo bom, onde eles possam viver e se desenvolver em segurança e com felicidade.

Assim, buscamos dar a eles, durante a infância e a adolescência, a qualidade de estudos que estiver ao nosso alcance, para que depois, quando adultos possam conquistar sucesso e felicidade por conta própria.

Esse é o anseio de boa parte da sociedade brasileira, encantados com as descobertas científicas e tecnológicas do século XX, corremos atrás da beleza, da juventude, do consumo de tecnologia, do sucesso, do dinheiro e do poder, e para isso preparamos nossas crianças.

Todo esse avanço tecnocientifico ampliou nossa estimativa de vida para além dos 70 anos, e trouxe mais conforto para o trabalho e para nossas casas, porém, além dos benefícios trouxe consigo alguns males que tornaram desgastante a vida de todos.

O progresso na área da tecnologia e da ciência não acabou com a fome no mundo e nem com a opressão. Hoje ainda há milhares de crianças que morrem de diarreia por falta de saneamento básico, inclusive no estado de São Paulo, o mais rico do Brasil.

Existem os excluídos sem acesso a creches, escolas, faculdades e sem moradia.

Existe trabalho escravo em plena cidade de São Paulo.

Ainda há violência doméstica contra a mulher, contra o idoso, contra a criança.

Há pais que educam seus filhos usando métodos da idade média: batem, beliscam, gritam, ameaçam suas crianças acreditando que isto é educar.

Temos desmatamento e poluição crescentes.

Sem falar na violência urbana, assustadora.

Há uma crise financeira mundial, de proporções gigantescas. Os jornais noticiam também a crise das lideranças. Desconfia-se que não temos líderes mundiais capazes de tomar decisões que coloquem a economia mundial nos eixos de novo.

Influenciados por Nietzsche acreditamos que tudo era relativo, e desta maneira se era bom para um e não para o outro, tudo era questão de ponto de vista, não existindo o bem e o mal, justificando-se assim atitudes muitas vezes perniciosas, desumanas ou cruéis contra os outros, com a desculpa do “do meu ponto de vista eu quero ser feliz e tenho esse direito”.

Esse é um dos suportes do pensamento das nações que vem levando a todos a essa bancarrota global; essa forma de pensar e agir envolveu o capitalismo vigente e serve de pilar para os grandes conglomerados empresariais.

A ética entrou em declínio, bem como valores como a gentileza, a generosidade e o acolhimento.

No final do século XX enfrentamos a convivência com a “Lei de Gerson”, o tal do levar vantagem em tudo. A corrupção na política, de uma forma endêmica, e nas bases da sociedade, são o resultado desse individualismo narcisista exacerbado.

Na busca da felicidade pessoal, acima de tudo, os casos de adultério e traições aumentaram em número fazendo crer a alguns estudiosos do comportamento humano que neste século não haverá mais relação monogâmica.

Vivemos a modernidade líquida, de acordo com Zygmunt Bauman, com seus males e bênçãos.

Uma sociedade de controle e insatisfação, onde os interesses individuais disputam espaço com os coletivos.

Todo esse desenvolvimento tecnocientífico, associado à urgência da satisfação dos interesses pessoais e dos objetivos de todos voltados para a riqueza, a juventude e o sucesso pessoal ou no máximo de seu grupo, geraram uma onda gigante de tensão, ansiedade, insegurança e estresse que nos atinge a todos em diferentes medidas.

Sem falar nos altos índices de depressão.

Nunca existiram tantas farmácias e tantos hospitais. Porque será? Estamos doentes, não só individualmente, mas como coletividade.

Em meio a tudo isso a ciência continua avançando e segundo o biomédico inglês, especialista em longevidade, Aubrey de Grey, já nasceu a criança que viverá 150 anos e ele afirma que em 25 anos com a terapia genética e as células-tronco será possível vivermos 1.000 anos.

Olhando para muitos pais de hoje, com quem converso, e convivo, percebo e ouço relatos do quanto se sentem impotentes frente ao que o futuro reserva a seus filhos, há um sentimento crescente de que a educação oferecida não esta atualizada para a demanda da vida contemporânea.

Não estamos preparando nossos filhos para viverem 120/150 anos.

Se no início do século XX os filhos eram educados para a obediência aos pais, o trabalho e o casamento, com uma estimativa de vida de 60 anos no máximo, no meio do século passado fortaleceu a ideia da necessidade dos estudos, associado ainda ao trabalho e ao casamento como objetivos de vida.

Já no final do século XX assistimos a uma mudança neste paradigma, pois, a dificuldade em conjugar objetivos profissionais e financeiros com a constituição de uma família, levou o casamento para um segundo plano, desta forma, a criação da família deixa de ser o motivo pelo qual se trabalha e o foco agora passa a ser a independência financeira e o sucesso profissional.

Com isso criamos uma imensa população narcisista, que não sabe olhar para o outro, que não sabe cuidar bem de uma relação amorosa, que busca ser feliz sozinha, desconhecedora que é da impossibilidade da felicidade individual.
Somos uma raça gregária, necessitamos da vida social para sobreviver. A infelicidade do outro nos atinge sempre das mais diversas formas. A felicidade só é uma realidade quando ela é social, ainda que inicie no indivíduo.

Mas e agora, quais as necessidades atuais deste início de Século XXI? Como preparar nossos filhos para uma vida de mais de 120 anos, onde a depressão, o medo de não ser amado, a solidão e a ansiedade, males que corroem a alma humana, passem longe?

Precisamos educar nossos filhos para muito além da preparação para o vestibular e para a escolha da faculdade.

Essas eram necessidades dos anos de 1970/80, desatualizadas perante o mundo de hoje.

Claro que a educação e a cultura sempre serão necessárias para o desenvolvimento da mente e da humanidade, mas por si só não bastam.

Dalai Lama conclama para uma revolução de valores espirituais se quisermos atingir um estado de contentamento individual e social.

A ONU e a UNESCO conclamam a todos para a educação para uma Cultura de Paz para que se possa viver num mundo mais seguro, criativo e feliz.

Viver 120 ou 150 anos em estado de ansiedade, depressão, angustia, tensão, estresse, tédio, será um tormento, uma tortura.

Dinheiro e sucesso não irão proteger nossos filhos desse sofrimento.

O que ensinar, para que ensinar e como ensinar? São as perguntas necessárias.

Ouvir o filho, descobri-lo, saber quem ele, é oportuno.

E, concomitantemente, prepara-los para outras conquistas, além das universitárias e profissionais: para o amor; para o diálogo; perdas; convívio com as diferenças; para a falta de pressa (viveremos muito); para a paciência; a capacidade de tomar decisões mais sábias e amorosas levando em consideração “o outro”.

Quem viver mais de 80 anos dificilmente terá apenas uma profissão. Além do que viverá um tédio sem fim se não amar muito o que faz.

Já não há mais necessidade de se colocar tanto peso na escolha da profissão aos 17 anos, afinal seu filho viverá mais de 100, porque precisa dessa pressa aos 17?

Talvez o final do ensino médio possa ser a porta para o início de descobertas mais criativas, através de um trabalho, de cursos técnicos, artísticos, ou até da escolha da faculdade se esse for o interesse do jovem.

Instiga-lo desde cedo a se interessar pela vida, pelas pessoas, pela família, pelo outro, o ajudará a manter-se em conexão saudável com a vida, e para isso o trabalho no Terceiro Setor, como voluntário, desde cedo é bom.

Cuidar para que o olhar dele vá além de si mesmo, enxergando os outros, a fim de conquistar um bem estar pessoal que reflita na sociedade.

Resgatar a ética e os valores humanos: gentileza, generosidade, inclusão, solidariedade, fraternidade, para que a vida seja mais harmoniosa em sociedade, menos violenta.

Será preciso desde a infância ensina-lo a usar da intuição e da criatividade, sem medo, sempre que for necessário.

Auxiliar a que aprenda sobre o fracasso, pois, evidentemente que serão muitos ao longo de uma vida longeva.

Estimular a cuidar do que é mais frágil: animais, plantas, ecossistemas, crianças, idosos, deficientes físicos ou mentais. Quanto mais vivermos mais teremos que cuidar do que é mais tenro e jovem.

Fortalecer a vida emocional e afetiva será ferramenta necessária para se passar pelos altos e baixos de muitos anos vividos. Bem como resgatar o sentido de sagrado inerente a vida.

A volta do cultivo das verdadeiras amizades e dos laços familiares para combater a solidão tão comum hoje, será útil, bem como desaprender a estabelecer apenas relações úteis, criando-se a possibilidade relações reais, de afeto, duradoras.

Ajuda-los a descobrir e entender seu temperamento, sua essência, para que possam manter-se autênticos e com boa autoestima.

Fazer com os filhos as perguntas: quem sou? Porque vivo? Para que vivo? Instigando-os a aprender a pensar, a filosofar, para manter uma boa saúde mental.

Buscar bases espirituais para que ele fortaleça sua esperança e fé. Tenha certeza a vida é insuportável se não se tem fé e esperança.

Inspira-lo a enxergar o belo para que ele possa, quando chegar seu momento, criar beleza ao seu redor.

Se o século XX foi o século da tecnologia e da ciência, parece que o século XXI será o da busca do sentido e da humanização da vida.

É hora de começarmos a preparar nossas crianças e jovens para esse imenso desafio.

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